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PERSONAGENS

25/5/2008

Eles fazem parte do Centro de Jundiaí

Entre as lojas e as movimentadas ruas Centro, eles sempre se destacam. Seja pelo trabalho que executam, pelas roupas que usam ou pelos gritos que chamam a atenção de quem passa - e até mesmo pelo carisma. Cada um é fragmento da área central de Jundiaí.


RUI CARLOS Eles sempre se destacam. Seja pelo trabalho que executam, pelas roupas que usam ou pelos gritos que chamam a atenção de quem passa - e até mesmo pelo carisma

Eles sempre se destacam. Seja pelo trabalho que executam, pelas roupas que usam ou pelos gritos que chamam a atenção de quem passa - e até mesmo pelo carisma

O engraxate triste - Olhos tristes e poucas palavras. O engraxate Benedito Tobias dos Santos, de 50 anos, desvia o olhar e esconde o rosto quando precisa falar. Há dois anos, ele é parte do Centro. Todos os dias, ele pega seu apoio de madeira, potes de graxa e seus pincéis para tornar os sapatos de quem passa pela praça da Matriz verdadeiras obras de arte. Com cuidado, ele faz o trabalho no capricho, para que os clientes voltem sempre. A opção de trabalhar por conta surgiu da necessidade de ganhar dinheiro. "Eu tenho deficiência em um dos pés e não posso trabalhar. Como eu ainda não consegui me aposentar, tenho que ganhar a vida de alguma maneira", conta ele, que veste num dos pés um chinelo e no outro uma botina preta, bem engraxada.

O ´Homem-propaganda´ -
Camiseta branca com um letreiro de "Compro e Vendo Ouro", calça social com riscos horizontais e um sapato empoeirado. É assim que o aposentado Benedito de Lima, de 75 anos, se diverte e ganha um dinheiro extra. Para faturar pouco menos de R$ 15 por dia, ele passa horas na frente do Museu Histórico e Cultural ´Solar do Barão´ trabalhando como propagandista. O trabalho é simples. Ele desfila com a camiseta e leva quem se interessa pelo produto até a loja correta. "Eu gosto de estar no Centro. Conheço e converso com todo mundo. Para mim, não é um trabalho, mas sim uma maneira de eu me divertir", conta, ressaltando que não gosta de ficar parado e adora passear. "Minha filha diz para eu ficar em casa, mas eu prefiro ficar na rua. Minha vida é essa aí", diz, com um largo sorriso no rosto.

O ´Homem-placa´ - "Faça hoje o seu orçamento. Preços especiais..." Gritando e gesticulando, Marcos Daniel Bueno, de 23 anos, trabalha há um mês como homem-placa fazendo a propaganda de tratamentos odontológicos. Piercing azul no dente e jeito irreverente, ele mostra que conquistou seu espaço na rua Barão.  Como não encontrava oportunidades no mercado de trabalho, ele deixou para trás a profissão de caixa e tomou gosto por trabalhar no Centro. "Eu tenho que chamar clientes, por isso falo alto. Eu me divirto. Além disso, gosto muito de trabalhar com o público. Faço amizades aqui e ainda ganho meu dinheiro",  fala.  Segundo ele, o emprego lhe rende pouco mais de R$ 10 ao dia. "Muita gente me critica, diz que este trabalho é coisa de vagabundo, mas eu acho melhor fazer isso que roubar."

A moça da limpeza -  
Vaidosa. Essa seria a primeira palavra para definir  Maria do Socorro Silva Rodrigues, de 43 anos. Com batom na boca, brincos, cabelo bem penteado, escondido embaixo do boné, e uniforme bem passado, a gari Maria do Socorro Silva Rodrigues é parte do Centro. "Eu passo protetor solar e desodorante. Trabalho muito cheirosa", conta. Há mais de dez anos, ela colabora na limpeza dos estreitas ruas da área central de Jundiaí. Para ela, é uma satisfação muito grande fazer o seu serviço. "Meu trabalho é muito importante. Eu gosto da minha profissão", diz. Maria reconhece que uma das maiores vantagens de trabalhar como gari é a liberdade. "Eu faço meu trabalho e ninguém me perturba", diz ela, que no meio de seu horário de almoço cedeu a entrevista à reportagem do JJ Regional.

Aleluia, irmão! - Ex-drogado e ex-roqueiro, o ´ex-maluco beleza´ Sinval da Silva Scher, de 39 anos, passa parte do seu dia pregando a palavra de Deus na praça. As tatuagens que ele tem no braço demonstram que no passado as coisas não eram assim. "Eu levava uma vida louca, tinha uma banda de rock, mas depois que conheci Jesus tudo mudou", conta ele, que há um mês, aos berros, passa sua verdade e filosofia para quem quiser ouvir.

"A praça foi escolhida porque é um lugar em que passa muita gente. Todos os pastores que pregam aqui têm o objetivo de plantar uma semente boa no coração das pessoas. Queremos que o povo reflita", conta ele, ressaltando que já viu muitas histórias emocionantes na praça. "Muitas pessoas param aqui em busca de uma palavra. Tem gente que chega a ponto de cometer suicídio e desiste porque encontra Jesus", explica.

Assim como ele, o porteiro Silvio Alves dos Santos, de 57 anos, dedica parte do seu tempo a Jesus. "Algumas pessoas que passam aqui não entendem nosso trabalho e xingam. Nós não levamos em consideração. Não temos revolta e nem raiva no coração", destaca ele, que há seis anos prega na praça. Para ele, o trabalho executado pelos pastores da praça é importante pois leva a palavra de Deus a quem não tem oportunidade de ir à igreja.


Vida que ninguém vê - Ele tem olhos azuis, que são ofuscados por suas rugas e traços sofridos. Vestido de roupas simples, debruçado sobre um skate, o angolano Fernando Manoel Rocha Teixeira, de 59 anos, ganha a0 vida pedindo trocados. Há 11 anos, ele teve trombose, o que fez com que perdesse as duas pernas. Antes de pedir esmolas, ele consertava geladeiras e máquinas de lavar roupas, mas depois da doença teve que arranjar uma maneira para sobreviver. "Eu não sou de estender as mãos, quem quiser me ajudar, ajuda", diz ele, que utiliza o skate para se locomover. "Eu moro em Campo Limpo Paulista e tenho muitas dificuldades para entrar nos ônibus, que não são adaptados", conta.

Ele pede esmolas há 10 anos. Começou pedindo em trens, mas logo escolheu o Centro. "Muita gente passa por mim e não está nem aí", diz ele, que precisa de uma cadeira de rodas motorizada para conseguir se locomover com mais facilidade.  Muito religioso, carrega no peito um crucifixo, que faz questão de mostrar. "Eu não tenho ninguém na vida. Só tenho o meu Deus." Ele faz questão de dizer que é feliz e que apesar das dificuldades impostas pela vida, ele é um homem feliz. "Não me considero deficiente. Para mim, deficiente é quem não raciocina. É quem mata, é quem rouba."

LUANA DIAS

Esta notícia foi atualizada em 25/5/2008 às 23:32

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