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"CACHORREIROS"

7/2/2010

Cães, gatos, poesias, livros e outras paixões


DIVULGAÇÃO O abandono de animais inspira histórias pelo olhar observador
da advogada aposentada Valdíria

O abandono de animais inspira histórias pelo olhar observador da advogada aposentada Valdíria

É preciso gostar de bichos e ser um bom observador para entender o valor das histórias narradas pela advogada e escrivã judicial aposentada Valdíria Carvalho Corrêa, uma gaúcha carregada de sotaque que transformou a paixão pelos seus cães e gatos adotados em inspiração para o livro "Nós, eles e nossas circunstâncias", publicado pela editora Real Academia de Letras.

A ideia era reunir as crônicas sobre os bichos em uma publicação para presentear no Natal e substituir os tradicionais cartões, que, como diz a autora, duram pouco. "Pelo menos, o livro ficaria mais com as pessoas. A gente vai, mas eles (livros) ficam e passam por muitas mãos", diz a escritora. Mas o projeto ganhou dimensão e Valdíria descobriu muitos outros "cachorreiros" (aqueles que não resistem a um olhar de piedade de animais abandonados) em sua experiência. "E não param de sair cachorreiros do armário, já recebi a sugestão de fazer a segunda edição. Não dá nem para pensar em parar", diz ela.

Amante dos livros e da poesia, a Valdíria deu seu toque pessoal de romance às experiências com estes animais que chegam sem rumo, mas acabam conquistando os corações mais sensíveis. Valdíria fala de Oscar, Rulque, Lindinha, Rafa, Estranho e tantos outros como se fossem velhos conhecidos do leitor, ou da repórter. Criaturas que recebem o carinho acima da capacidade da compreensão humana e capazes de aproximar pessoas. "A gente acaba encontrando pessoas com a mesma afinidade, com o mesmo sentimento pelos animais. Não dá para explicar, é como o amor: ou tu sentes, ou não sentes", diz.

O sentimento transparece na narrativa. A cada capítulo, um personagem, como ele surgiu, foi acolhido e o que representou na vida da advogada. Ela não faz parte de nenhuma ONG (Organização Não Governamental) ou associação de proteção animal, mas fez de sua casa um reduto das vítimas do abandono. "Eles caem aqui de paraquedas, são eles que me escolhem. Tenho o bom senso de não acolher e cuidar de todos porque não teria condições para isso, mas às vezes fica impossível resistir ao pedido deles."

Valdíria fala com a autoridade de quem sabe se comunicar com os bichos. Brinca que não domina o "cachorrês", mas sabe reconhecer nos latidos, no comportamento e nas reações o que eles querem e "contam" para ela. "Basta ser um bom observador: prestar atenção por poucos segundos e entender exatamente o que eles têm a nos dizer." Nesta linguagem, ela conta como a lembrança da chegada de Oscar ainda é capaz de fazer emocionar, como Lindinha impõe aos seus companheiros respeito ao animal mais velho e como os cães abrigaram Rafa, o gato que virou amigo de seus "rivais". "Eles sempre latiram e implicaram com qualquer gato que passasse nas ruas, mas quando o Rafa veio para cá, eles entenderam que ele pedia abrigo e o Rafa até hoje anda livre, leve e solto pela casa sem ser incomodado." No livro, ela transcreve "diálogos" entre os bichos e traduzidos pela observação e sensibilidade da dona.


Efeitos - Com as relações humanizadas, Valdívia é incapaz de responder de pronto quantos animais já passaram por sua casa ou quantos ainda moram lá: lista cada um deles pelo nome, pela idade estimada e por suas características (como Tófe, um "schnauzer mestiço", já sem dentes, mas que não perde a bravura de um pit bull). No fim das contas, chega a sete o número de cães adotados atualmente, e cuidados com a ajuda de outras duas pessoas. Mas diz que a quantidade sempre varia: nem todos ficam para sempre, outros morreram de velhice e o abandono na rua não para. Apesar de tudo, as passagens dos animais pelo endereço da advogada ficam sempre registradas, pelas histórias escritas ou por fotos, como a do primeiro gato que ela teve, quando tinha apenas 3 anos.

A atenção surte efeito recíproco. Valdíria lembra que começou a organizar a coleção de histórias e fotos quando passava por um tratamento de saúde, no ano passado. "Fui buscar fotografias, remexer nas lembranças e comecei a sorrir. Isso me ajudou muito", diz ela. O resultado está em "Nós, eles e nossas circunstâncias", que revela também outros cúmplices da missão de Valdíria, ou melhor, "cachorreiros", que mudam a vida de animais abandonados por "pessoas sem almas", como ela escreve, e seus próprios destinos. "Acabei de ter alta do hospital, fiz uma cirurgia de alto risco por causa de um aneurisma e fiquei mais de 10 dias hospitalizada, e o Tófe veio me receber, contou tudo o que aconteceu em casa na minha ausência e agora não sai do meu colo", disse ela, sem perder o humor, ao atender a reportagem do JJ Regional na semana passada.

ANDRÉA LAVAGNINI

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