ALEXANDRE MARTINS
Rita explica que o principal fator de risco para o câncer de mama é ser mulher: 99% dos casos atinge mulheres e 1%, homens
A médica Rita Dardes, ginecologista e mastologista da Unifesp, diretora médica também do Instituto Avon, é quase uma ´amiga´ ao conversar com suas pacientes. Calma, atenciosa e ´investigadora´ do tumor mais comum entre as mulheres - o câncer de mama -, Rita esteve recentemente em Jundiaí para uma palestra de orientação na Sala Glória Rocha. O evento fez parte das comemorações da "Semana da Mulher Jundiaiense - O Foco é Você", promovido pela Prefeitura, e reuniu dezenas de mulheres interessadas em saber mais sobre o tumor. Em entrevista, a médica destacou que o câncer de mama não é uma sentença de morte, devido aos tratamentos modernos e novas tecnologias em aparelhos. A principal arma, no entanto, é a detecção precoce. Jornal de Jundiaí Regional-- Em Jundiaí, foi anunciada a construção de um centro de mama pelo Instituto Avon. Como está o trâmite para as obras? Rita Dardes - A construção já teve início. Será um polo de mama, ou seja, um centro secundário que irá agilizar os procedimentos da mulher que está com câncer de mama. Nesse centro, ela fará ultrassom, mamografia, biópsia e será referenciada para um hospital que possa tratá-la. Será um centro que agiliza o tratamento e faz com que a mulher não fique perdida quando é detectado um nódulo, por exemplo, e ela não sabe o que fazer com aquilo.
JJ - De que forma esse centro vai contribuir com a Região? Rita - Vamos ter um mamógrafo digital, que agiliza o número de mamografias. Também vamos oferecer a oportunidade de a mulher ser referenciada para o hospital certo, fazendo com que ela não fique de um lado para outro. O intuito é a ´resolutividade´. É criar um ambiente único para que a mulher tenha tudo ali e para que o diagnóstico seja dado em curto período de tempo.
JJ - Mesmo com tanta divulgação e informação, por que o câncer de mama ainda é o que mais mata as mulheres? Rita - Porque ele é multifatorial. Ninguém sabe o que causa o câncer de mama - diferente, por exemplo, do câncer do colo do útero, que a gente conhece o agente etiológico, que é o HPV (papilomavírus). Em contrapartida, o câncer de mama é traiçoeiro, pois não dá aviso prévio. Por mais que você não tenha história de câncer de mama na família, por mais que você não use hormônio, por mais que você tenha filhos, tenha amamentado, evitado obesidade, por mais que você não consuma dois copos de álcool por dia, ou tenha tido a primeira menstruação após os 12 anos, ou menopausa tardia - todos são fatores de risco - você ainda pode ter o câncer de mama. Então, vemos que é um câncer no qual a pessoa pode tentar fazer a sua parte, mas é difícil evitá-lo, pois não existe prevenção. Existe detecção precoce, que é a descoberta em fase inicial para salvar a mulher do câncer de mama. Por isso, a gente dissemina a importância da mamografia, que é o método que consegue detectar o tumor. Infelizmente, ainda não há um rastreamento organizado no Brasil. As mulheres não têm essa cultura de, religiosamente, fazer a mamografia no período correto (anual). Hoje sabemos que 60% dos cânceres de mama são descobertos pela própria paciente. Normalmente, é a paciente quem chega para o médico e diz que está com um tumor. Ela se apercebeu, ela se tocou, e quando isso acontece, geralmente já é um tumor em estágio avançado.
JJ - Então, o problema está na falta da detecção precoce? Rita - Sim. Também faltam o rastreamento organizado populacional e o acesso à mamografia. Muitas vezes, a mulher que utiliza o SUS não tem acesso à mamografia. Pode até ter, mas aí falta o fluxo (a continuidade). Não adianta ter a mamografia com uma suspeita de câncer, se a mulher vai demorar mais seis meses pra fazer uma biópsia, e a doença pode mudar de estágio - do inicial para o avançado. Essa demora não pode acontecer.
JJ - Quando detectado o câncer, qual o tipo de tratamento mais indicado? Rita - Tudo depende do estágio da doença, do tamanho da mama e do tumor. Se tiver uma mama muito grande e um tumor pequeno, pode-se tirar parcialmente essa mama, que é o que chamamos de um quadrante, fazendo uma cirurgia para preservar a mama, e seguir com radioterapia. Se houver acometimento dos gânglios, o tratamento será complementado com quimioterapia. E além do mais, dependendo do tumor, o médico pode indicar a hormonioterapia por mais cinco anos, que é um antiestrogênio. Se a mama for pequena e o tumor grande, infelizmente a mulher terá de passar por uma mastectomia. No câncer avançado, certamente a mulher terá de fazer a mastectomia radical (retirada total da mama), além da radioterapia, quimioterapia e hormonioterapia. Felizmente temos tudo isso para oferecer à paciente.
JJ - Qual a importância do autoexame das mamas e da mamografia? Qual a idade mais indicada para fazer a mamografia? Rita - Se a mulher tiver histórico de câncer na família, a partir dos 35 anos. E também se ela for considerada uma paciente de alto risco - quando há casos de câncer de mama na mãe, filha ou irmã antes da menopausa. Se também houver câncer de ovário na família, câncer de mama masculino ou câncer de mama bilateral, o alto risco também é observado. É o ginecologista ou mastologista quem sabe classificar se a paciente é de alto risco ou não. Se for, a mamografia deve ser feita a partir dos 35 anos. Mas para a grande maioria da população, a indicação é a partir dos 40, anualmente. O autoexame não pode ser uma estratégia única e isolada para câncer, porque quando a paciente percebe o tumor por meio da apalpação, ele já não é tão precoce. O Ministério da Saúde (MS) não nomeia mais o ´autoexame´. Ele orienta a pessoa ao autoconhecimento. Mas não preconiza mais fazer o autoexame mensal, após a menstruação. O MS acredita que a mulher precisa ir ao ginecologista anualmente e ser submetida ao exame clínico pelo médico, que é treinado para perceber tumores menores do que a mulher é capaz de notar.
JJ - Para as mulheres com menos de 35 anos, o ultrassom das mamas é indicado para detecção de tumores? Rita - Quando as mulheres são muito jovens, mas apresentam alguma queixa (relacionada a nódulos), a gente solicita a ultrassonografia. O raio-x das mamas, ou seja, a mamografia, não é muito boa para mamas densas, porque não consegue enxergar o tumor. Então a gente pede a ultrassonografia, mas não é um procedimento de rastreamento; é complementar. A mulher que tem 40 anos ou mais, e tem mama densa, além da mamografia, o ultrassom também é solicitado.
JJ - A incidência de câncer entre as mulheres jovens é alta? Rita - A Sociedade Brasileira de Mastologia publicou um artigo dizendo que essa informação não é verdadeira. O que eles comprovam é que aumentou o número de casos no geral, já que a população também cresceu. Na verdade, houve um aumento em geral de câncer de mama em todas as faixas etárias, mas não um crescimento de câncer entre as mulheres jovens. Só sabemos que o câncer aumentou nos últimos anos, porque tem mais detecção precoce, já que os aparelhos digitais conseguem detectar muito bem. A tecnologia e a modernidade trouxeram incrementos.
JJ - Existe uma faixa etária em que a mulher é mais acometida pelo câncer de mama? Rita - Sim. O pico maior é entre 50 e 60 anos. Mais de 60% dos casos de cânceres de mama são registrados acima dos 50 anos.
JJ - Quais são os principais fatores de risco? Rita - O primeiro deles é ser mulher. O câncer de mama acomete 99% das mulheres e apenas 1% dos homens. O segundo é o envelhecimento, quando a incidência aumenta, a partir dos 40 anos, com pico entre 50 e 60 anos. Se todos vivessem até 120 anos, todas as mulheres teriam câncer de mama. É igual o câncer de próstata nos homens, cuja incidência é muito alta no envelhecimento. Outros fatores de risco são a obesidade na pós-menopausa; consumo de álcool (dois cálices por dia); falta de atividade física; o uso de terapia hormonal também pode estar associado a um pequeno risco de câncer de mama; ter filho após os 30 anos; ter a menarca (primeira menstruação) antes dos 12 anos; e ter a menopausa a partir dos 55 anos, entre outros.
JJ - Antigamente, o paciente recebia o diagnóstico de câncer e considerava uma sentença de morte. Isso mudou com o tempo, devido aos novos aparelhos, ou o câncer está mais comum? Rita - Hoje dizemos que o câncer está se tornando uma doença crônica. Dificilmente as mulheres estão morrendo, justamente por essas ´armas´ - estratégias de tratamento que temos hoje. A grande dica é o diagnóstico precoce, mas também o tratamento precoce. Assim que ele é detectado, é importantíssimo atuar, fazendo a cirurgia, radioterapia e quimioterapia, se preciso. Não pode haver um hiato entre o diagnóstico e o tratamento, pois isso traz malefício à sobrevida da mulher. Existem alguns trabalhos comparando pacientes com o mesmo estágio da doença, sendo tratadas pelo SUS (Sistema Único de Saúde) e pelo hospital privado. Os estudos apontam que a sobrevida da paciente do hospital privado é maior. Aí está o impacto do tratamento. A mulher que tem mais oportunidades de usar medicamentos (anticorpos), como o herceptin (anticorpo monoclonal), tem mais sobrevida. Só agora esse medicamento, caríssimo, está sendo introduzido no SUS. É uma droga caríssima, mas faz a diferença. A mensagem principal é: o câncer não é uma sentença de morte. Hoje existem muitas armas de tratamento. O sistema imunológico do paciente também precisa ser competente e a mulher não pode desanimar. Precisa ser uma guerreira e buscar alternativas para todo tipo de tratamento.
JJ - Recentemente foi aprovada uma legislação que prevê um período de até 60 dias para o início do tratamento de pacientes com câncer, via SUS. Como avalia essa norma? Rita - É isso. Tem de ser lei mesmo. E a paciente precisa buscar que seja cumprida, pois não pode haver um hiato entre o diagnóstico e o tratamento.
PAULA MESTRINEL
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