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O ortopedista Éverson Giriboni, afirma que ainda há preconceito em relação à doação de órgãos
A doação de tecidos músculo-esqueléticos - compostos por ossos, cartilagens, pele e ligamentos - ainda é pouco difundida na sociedade brasileira. Em Jundiaí não há notícia da captação de ossos para transplante e, em Campinas, os pacientes estão deixando de ser operados pela falta de doações. O ortopedista Éverson Giriboni faz um alerta: "Mesmo com campanhas, ainda há preconceito em relação a doações de órgãos, principalmente a de ossos. A conseqüência disso é a demora na realização da cirurgia, que pode agravar o quadro clínico do paciente", explica.
A falta de conhecimento também é citada pelo médico que é de Campinas, membro titular da Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia, e da Academia Americana de Ortopedia e Traumatologia. "Muitos familiares acham que doando o osso irá deformar o corpo do doador. Isso não é verdade, pois colocamos próteses no local onde foi retirado o tecido. Outro motivo é que os familiares de potenciais doadores - aqueles com morte encefálica - não sabem da real necessidade do receptor, ou que o osso também é transplantado", diz Giriboni.
Banco de ossos - Há 10 anos funciona em Campinas o Banco de Ossos, especializado em armazenar e preparar os ossos para cirurgias. Eles são retirados de pessoas com morte cerebral, após autorização dos familiares. As doações, no entanto, também podem partir de pacientes vivos. "Doadores vivos são aqueles que irão necessitar de uma prótese de quadril, onde a cabeça do fêmur é substituída por uma prótese. Ao invés da cabeça ser desprezada, guardamos o material no banco de ossos para que seja utilizado em um futuro receptor. Porém, com a nova técnica de recapeamento - na qual recobrimos a cabeça do fêmur para preservá-la - está havendo uma sensível diminuição na captação de ossos de doadores vivos", completa o médico.
No caso dos doadores com morte encefálica existe a central de transplantes. "Utilizamos em grande escala o Banco de Tecido do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo", informa Giriboni, acrescentando que participou ativamente da formação do Banco de Ossos de Campinas - atualmente em reforma devido à mudança de legislação.
Números - Durante esses anos, o médico comenta que foram feitas apenas duas captações de doador, no caso de morte encefálica. "Atualmente o tempo de espera por um transplante ultrapassa três meses e não é possível realizar um número maior de cirurgias. Para se ter idéia da gravidade, em toda a cidade de São Paulo, no ano de 2007, foram realizadas somente sete doações de ossos e nenhuma em Campinas". E ainda faz um apelo: "O osso é um tecido e existem inúmeras pessoas na espera por um transplante. Somente eles sabem o que significa a falta de doações", pondera. Compatibilidade - O ortopedista explica que não é preciso haver compatibilidade, no caso do transplante, pois o osso é constituído basicamente de cálcio e fósforo, não possuindo antígenos. Conseqüentemente, não estimula os anticorpos da pessoa receptora. O procedimento para a captação de ossos é trabalhoso e demanda várias etapas, segundo o ortopedista. Primeiro colhe-se o osso para serem realizados todos os testes microbiológicos e contra os vírus transmitidos pelo sangue. Posteriormente, é retirado o material não-ósseo (sangue ou cartilagem). O material é congelado e pode ser conservado nesse estado por até cinco anos. O método também diminui as chances de rejeição ao implante e conserva as proteínas essenciais para o processo de integração entre o receptor e o osso doado.
Sistema de transplante - Para que o transplante ósseo ocorra, médico e hospital têm de estar cadastrados no Sistema Nacional de Transplantes (SNT). O Hospital de Caridade São Vicente de Paulo, em Jundiaí, faz apenas a captação de córneas, desde janeiro deste ano. Uma das propostas do hospital, segundo a assessoria de imprensa, é ampliar a estrutura para iniciar a captação de outros órgãos.
Ministério da Saúde - De acordo como o Ministério da Saúde não há números oficiais de doação de ossos ou transplantes realizados no País e informa que existem seis bancos de tecido músculo-esqueléticos no Brasil autorizados pelo Sistema Nacional de Transplantes: Instituto Nacional de Traumatologia e Ortopedia no Rio de Janeiro; Hospital das Clínicas do Paraná; Hospital das Clínicas de São Paulo; Hospital Universitário de Marília (SP), Santa Casa de Misericórdia de São Paulo e Associação Hospitalar São Vicente de Paulo, em Passo Fundo (RS).
Os bancos de tecido realizam a captação através de profissionais autorizados pelo SNT e também fazem o processamento do tecido, armazenamento e posterior distribuição. Quando houver a necessidade de tecido ósseo para enxerto, este tecido é solicitado via Central de Notificação, Captação e Distribuição de Órgãos (CNCDO) do Estado ao banco de tecidos que tiver disponibilidade para atender a demanda. O paciente já deve ter se submetido anteriormente à consulta médica para indicação de enxerto ósseo e só pode ser transplantado por equipes e hospitais autorizados pelo SNT e Ministério da Saúde.
PAULA MESTRINEL
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