CRISTINA HAUTZ
Exercícios são complemento ao tratamento
Para falar com Sebastian (nome fictício escolhido pelo próprio entrevistado) é preciso marcar horário. Dífícil achá-lo em casa. O dia a dia se divide entre malhação na academia, caminhada, vôlei, encontros com grupos e sessões de cromoterapia, entre outros, além da atenção à família. "Alguns dias não tenho nada para fazer e, mesmo assim, procuro fazer nada com qualidade", brinca. "É quando leio um livro, pinto um muro ou uma grade, ouço música. Procuro ser boa companhia para mim mesmo. Tenho 24 horas para conviver comigo", explica.
Sebastian é aposentado como instalador e reparador de linhas telefônicas, tem 55 anos e é portador do vírus HIV. Morador de Campinas, é casado, tem três filhos e dois netos. Contraiu o vírus da Aids por ter usado drogas injetáveis e tomou conhecimento disso há 14 anos. "Usei drogas para fugir da realidade. Eu nunca gostei de mim".
A ajuda do grupo dos Narcóticos Anônimos fez com que Sebastian reencontrasse seu caminho e a Aids, ao mesmo tempo, o fez valorizar a vida. "Hoje eu acredito no criador e sei que faço grande diferença para mim e para os outros que têm os mesmos problemas. Entendo que vim ao mundo para somar e dividir dificuldades."
Para chegar aonde está hoje, no entanto, Sebastian passou por várias etapas. "No começo da doença, fiquei desesperado e pensei em suicídio. Para a família também foi um choque, pois sou o único portador de HIV dentro dela. Eu não aceitava a realidade e me sentia sozinho", relembra. "Depois entendi que carregar o piano sozinho não dá. Você melhora quando se junta a outros iguais a você. Eu adquiri o vírus e não culpo o criador por isso; eu o agradeço. Hoje, sei que faço parte dos vencedores", afirma. "Tomo 22 comprimidos por dia e não vou dizer que gosto disso. Mas valorizo muito mais a vida".
Depois de ter descoberto uma vida nova, Sebastian não parou mais. Por isso, tem agenda cheia. Um dos compromissos é ir a uma academia de ginástica, no bairro do Cambuí, voltada a portadores do HIV. Lá, faz exercícios e tem orientação nutricional. "Meu organismo funciona melhor e me sinto fortalecido. A absorção dos medicamentos também é melhor", diz. "Todos os profissionais que trabalham com a gente são solidários e iluminados. E tem uma frase boa que sempre digo : Antes nos escondíamos para morrer. Hoje, nos mostramos para viver".
A academia - Equipamentos novos e coloridos distribuídos em uma sala. Nas paredes, há recados colados com mensagens do tipo "namore", "beije" e "curta". A fachada é de uma casa comum, para preservar os usuários, já que o preconceito ainda existe. É a Academia Espaço CR, exclusiva para portadores do HIV/Aids e funcionários de centros de referência. Ela faz parte do Programa Municipal de Doenças Sexualmente Transmissíveis e Aids, mantido pela Prefeitura de Campinas, que também oferece, em outro local, atendimentos variados e medicamentos. Tudo é gratuito.
Para que o portador frequente a academia, é necessário ter encaminhamento médico. Esse público precisa de treinos específicos, pois seu gasto energético é maior do que o de quem não tem o vírus. Assim, um treino sem orientação pode ser prejudicial. "Na maioria, atendemos pacientes do SUS (Sistema Único de Saúde). Mas a pessoa pode vir indicada por médico particular", diz Nacle Nabak Purcino, nutricionista. "A pessoa passa por avaliações aqui e depois volta ao seu médico, que só então a libera para iniciar os treinos."
O projeto da academia, que tem 170 usuários, tem um ano e foi ideia de Nacle e do professor de Educação Física Frederick Romano. "Já tínhamos um grupo de caminhada e vôlei, mas percebemos que era preciso um trabalho mais específico, principalmente para combater a lipodistrofia", explica Nacle.
A lipodistrofia provoca uma distribuição irregular da gordura pelo corpo e é originada provavelmente pelos remédios e pelo próprio vírus. Ela afeta a autoestima dos portadores. "Está comprovado que o exercício dá resultado e faz bem para a saúde. Mas é importante destacar que as pessoas criam redes sociais e muitas amizades também", diz Frederick.
O professor afirma que a equipe tem conhecimento de que cidades como Belo Horizonte e São Paulo desenvolvem projetos semelhantes ao de Campinas. "Sabemos que nem todas as cidades têm condições de fazer algo assim. Mas queremos despertar o interesse por uma vida mais saudável e uma postura mais ativa. Você pode não ter uma academia só para esse trabalho, mas o serviço público pode usar outros meios, com parcerias, inserindo os portadores em alguma modalidade esportiva." O telefone da academia é o (19) 3232-0003.
PATRÍCIA BAPTISTA
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