RUI CARLOS
No Cemitério Monte Negro, corujinha solitária faz parte do ambiente onde paira a paz e a saudade
Aos meus filhos, conto, hoje, que minha avó materna era parteira solícita e famosa. Jovem viúva, ela não hesitava em deixar nas mãos de Deus os tantos filhos para, no meio da noite, sair à ajuda de quem, fosse onde fosse, estivesse prestes a dar à luz.
Agradecidos, os pais dos recém-nascidos a presenteavam - embora ela nada cobrasse pelo auxílio - com uma saca de café, arroz, galinhas, ou um quartinho de leitoa que seria conservado em lata de banha para saciar, a contento, a fome da família. Sei disso, porque o ouvi de minha mãe, embevecida à sombra de lembranças.
Já minha avó paterna ia costurando à revelia, em ritmo lento, num pedaço de pano virgem, enquanto murmurava repetidamente uma breve oração. Isto eu mesma assisti incontáveis vezes, na infância. Era minha vez de testemunhar milagres de cura, a fim de mais tarde, relatá-los à próxima (esta) geração.
O que dirão meus anjos, porém, adiante?, pergunto-me desde que em meu seio como bênção, estes dois vieram escutar-me o coração, aninhando-se-me à pele após mamarem. Vivemos em meio a um ceticismo pungente, eu pensava até bem pouco. Tranquilizei-me porque, em meio às arrumações de fim de ano, Papai Noel deu-me de presente reler as redações por meus filhos desenvolvidas em sala de aula...
Havia, entre uma e outra linha, uma poesia pujante capaz de transformar o mundo. Ao menos, o mundo interior. Este mundo íntimo donde todo o restante provém: crença e maturidade, inclusive. Havia ali um metafórico baú, cujo conteúdo é similar a este que, há alguns anos, carrego de uma a outra unidade escolar daqui e de outros cantos.
Este mesmo bauzinho pelo qual eles me assistem zelar, e de cujas andanças tanto conversamos prazerosamente. Há, portanto, agora, dentro de mim, o reencantamento frente ao assombro que é o assombro natural diante do desconhecido, no caso, um novo ano que se afigura. Até porque, não há bem que sempre dure, nem mal que não se cure...
Valquíria Gesqui Malagoli é escritora e poetisa. vmalagoli@uol.com.br / http://www.valquiriamalagoli.com.br / vmalagoli.blog.uol.com.br / http://reval.nafoto.net
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