O recente encontro mundial da FAO (Organização para a Agricultura e Alimentação da ONU) tem o mérito de reavivar o debate sobre a fome, no entanto o faz tratando-a levianamente e não com a devida seriedade que o tema merece. A tentativa de associar o projeto brasileiro de produção de álcool como capaz de colocar em risco áreas destinadas à plantação de alimentos mostra, primeiramente, que a autonomia tecnológica e energética de nosso país fere interesses maiores.
A evidência da intenção revela-se no fato de ignorarem as imensas condições territoriais do país. À parte essa questão geopolítica, é vergonhosa a forma como tratam como se fosse novo um tema antigo: a própria fome. Ao contrário do que diz a FAO e a mídia brasileira repete, a fome não surge ou ressurge por conta do etanol, tão pouco pelo aumento dos preços dos alimentos. A fome, ao contrário, sempre existiu, mesmo que dela não se falasse. Essa discussão coloca o Brasil no centro do debate, seja pelo número de famintos, seja pelo etanol, mas há um terceiro sentido, o mais importante, embora nem sempre lembrado: a contribuição de Josué de Castro para revelar e compreender a fome no mundo. Nesse ano de 2008 comemoram-se cem anos de nascimento desse médico e geógrafo brasileiro, ex-presidente da FAO.
Josué de Castro chegou a tão respeitável cargo não por politicagens, como parece ser a regra, mas por seus méritos. Sua obra mostrando e explicando a fome no mundo foi, em meados do século passado, a mais importante contribuição que se fez aos estudos sobre a fome, em todo o mundo. São escritos fundamentais pautados no método geográfico e que denunciam as perversidades do mundo. Como ele dizia, seu objetivo era fazer uma geografia das misérias e não das grandezas humanas.
Pena que a própria FAO tenha se esquecido de seu antigo presidente, pois em sua obra há um ensinamento fundamental que bem lhe serviria: para Josué de Castro, a história do homem tem sido uma história de fome, e da luta para vencê-la. Não há fome nova, portanto, a não ser para aqueles que fecham os olhos para o que acontece no mundo. É também de Josué uma denúncia que necessita ser novamente feita: dizia ele que a fome é um tabu, um assunto proibido e indesejado. Observando a leviandade com que o tema é tratado, ainda hoje podemos lhe dar razão.
Assim, não se trata de ingenuidade ou ignorância o atual rumo dado aos debates sobre a fome. A questão central é que o alimento deixou de ser considerado um direito social ou algo destinado a alimentar e tornou-se uma mercadoria, uma commodity regulada pelo mercado e negociada nas bolsas de valores, lugares que não se guiam pelas necessidades dos famintos, pelo menos não dos famintos por comida.
O mundo produz, há tempos, mais alimentos do que são necessários para alimentar todos os habitantes do planeta, mas o que é produzido, seja por necessidade ou não, é desigualmente distribuído e apropriado, a partir de grandes empresas mundiais com o aval de governos mais comprometidos com o mercado do que com a vida. O modo capitalista de produzir, o qual seguimos, tem no seu cerne a contradição, que nesse caso revela-se pela coexistência entre a abundância e a escassez, e é por isso que mesmo que se dobrasse a produção mundial de alimentos a situação dos famintos pouco mudaria.
No atual período histórico dizer que a fome é causada pela natureza ou pela falta de técnicas para produzir alimentos é ignorar que são os homens os responsáveis pela forma como vivem os homens. A fome, como a pobreza, o desemprego ou a violência, questões fundamentais ainda insolúveis pela humanidade, não dependem do avanço técnico, mas de um verdadeiro avanço político. Reside na política o rumo para novas formas de democracia, com conteúdo e substância e não apenas com rótulos, engodos e slogans.
Fábio Tozi é Mestre em Geografia pela Unicamp, Professor do Centro Metropolitano de São Paulo - UNIFIG. E-mail: fabio.tozi@gmail.com