JORNAL DE JUNDIAÍ
Ex-vereador Antonio Galdino, Jayme Martins e Cid Tavares foram perseguidos pela Ditadura Militar
A verdade nem sempre tem dois lados. Nem mesmo no contexto maniqueísta da Guerra Fria. Mães que não puderam enterrar o corpo de seus filhos, famílias destroçadas torcem agora que documentos e depoimentos venham à tona para que, finalmente, o passado nebuloso do Brasil seja revelado. A esperança é que a máscara não venha cravada pelo revanchismo.
Essa é a promessa da presidente Dilma Rousseff, ao criar a Comissão da Verdade, que irá investigar os crimes cometidos durante a Ditadura Militar. Em Jundiaí, vários comunistas foram presos e torturados. Dois são lembrados com mais frequência: o ex-vereador Antonio Galdino, que foi torturado pela Oban (Operação Bandeirantes) durante três meses por sua atuação sindical, e o jornalista Jayme Martins, exilado, por ter morado na China antes do golpe militar acontecer.
Foram presos Cid de Jesus Tavares, Jayme Schenkell, Adamastor Fernandes, Antonio Tracci, José Baptistella, Onofre Canedo e muitos outros. Ainda muito jovem, Antonio Galdino entrou para o Sindicato dos Têxteis. Em 1963, foi eleito vereador pelo PSB. Ainda como parlamentar, foi para a União Soviética estudar. "Fui legalmente e voltei legalmente." Após o golpe militar, Galdino abandona as atividades políticas, mas nem por isso deixou de ser perseguido.
"Fui preso em 1965 e levado para a Oban. Lá fui torturado, mas como não havia prova contra mim, fui liberado três meses depois." Mesmo convidado pela filha de Luiz Carlos Prestes, Anita Prestes, não quis mais atuar no partido comunista. Por conta das prisões, Galdino não arranjava mais emprego. "Tive de abrir uma sapataria para conseguir manter minha família." Nem por isso pediu indenização ao Estado.
"Tudo que fiz, foi porque eu quis. A atitude era minha, nunca fui forçado a nada." O ex-vereador confia na Comissão da Verdade. "Ela está lá para elucidar fatos, não cabe nenhuma punição." Ele também é a favor da apuração dos dois lados: militares e guerrilheiros. "A população não conhece a história. Os setores mais conscientes deviam exigir publicidade certa e honesta sobre os fatos ocorridos."
Na China - O jornalista Jayme Martins, então chefe de reportagem do jornal Última Hora, foi convidado a trabalhar na China em 1962, como professor de Português. Em 1964, volta ao Brasil para renovar o seu visto. "Fui preso em Jundiaí, na casa de Erazê Martinho, com alguns socos no maxilar. As acusações diziam que eu era jornalista que viveu na China e que, como não tinha recursos, com certeza era bancado pelo partido."
Jayme ficou preso 18 meses, primeiro no DOPS e depois no Carandiru, junto aos presos comuns. O habeas corpus foi conseguido no Supremo Tribunal Federal pelo advogado jundiaiense Muzaiel Feres Muzaiel. "Não fui torturado." Na saída da prisão, teve de passar por peripécias para conseguir um passaporte e voltar à China com a esposa e a filha. Lá, ficou exilado por 17 anos. Para Jayme, a Comissão da Verdade tem a missão de ouvir os dois lados.
"Temos de passar a história a limpo, mesmo que não haja punição." O ex-comunista Cid de Jesus Tavares não é tão otimista. "Não creio que consigam levantar a verdade. Vão ter dificuldades em encontrar documentos e depoimentos." Cid ficou preso durante 28 dias no quartel, em Jundiaí. "Não apanhei. Fomos bem tratados pelo capitão, que dizia que éramos hóspedes do Exército. Afirmava se um dia fosse preso por nós, gostaria de receber o mesmo tratamento."
Na saída da prisão, nunca mais arranjou emprego em Jundiaí. A vida recomeçou em Mato Grosso, onde se mudou com os cinco filhos. O irmão mais novo - que servia o Exército - também foi preso por 40 dias. O crime foi ter levado duas maçãs e um sanduíche que a mãe tinha enviado para o filho. No papel do pão, um bilhete: "Você vai sair daí. Seu pai (um ferroviário conservador) está conversando com o comandante."
ARIADNE GATTOLINI
|